Jovens millennials da selva

A geração facebook e whatsapp e do acesso imediato a tudo.

Publicado Sábado, 08 de Julho de 2017


Grande parte do meu tempo aqui é passado com jovens. Quando digo isto, imagina-se logo jovens de 16 ou 17 anos mas a realidade é diferente, têm quase todos acima de 20 anos.

Alguns já trabalharam, já viveram temporadas em cidades grandes, alguns têm família constituída. E isto pode significar casamento, união de facto ou tão só uma parceira numa comunidade com um filho reconhecida publicamente como pareja. Alguns têm mais do que uma parceira, em diferentes sítios. Todos sabem e aceitam, mas quando pergunto se é correcto noto um desconforto na resposta. O papel da mulher é secundário e há muito machismo nesta cultura. Apenas 20% dos estudantes no Instituto são raparigas.

Esta é a fase mais difícil para qualquer educador... não têm a inocência e curiosidade própria das crianças nem o sentido de responsabilidade que se espera de um jovem profissional que saia do Instituto. Os jovens que vivem em internato comigo, pagam cerca de 20€ mensais por pequeno-almoço, almoço, jantar e dormida. Têm acesso permanente a água, luz e computadores com internet. A sala de informática é única em toda a Província de Condorcanqui, através de donativos de Fe y Alegría Perú, do Ministério da Educação que oferece a ligação internet por satélite e com a minha ajuda no local a configurar tudo. São condições pouco comuns para esta zona da Amazónia, um verdadeiro privilégio.
Em troca devem manter o espaço do Instituto, ajudar nas tarefas de cozinha e limpeza. Fazem-no com pouca vontade, mas é para isso que cá estou... para os organizar, motivar e fazer entender que oportunidades como esta são raras e devem ser aproveitadas.

Estes são os problemas normais de qualquer juventude, em qualquer parte do mundo. Qual o país ou cultura que não tem problemas de irreverência com os seus jovens adultos?

Têm smartphones, usam Facebook, Whatsapp e tiram selfies. Andam constantemente com headphones na cabeça e boné virado ao contrário. Isto acontece em qualquer país europeu porque os seus ídolos são os mesmos: Justin Bieber, Neymar ou Cristiano Ronaldo. E a vontade de os imitar é igual.

Mas a distância entre o mundo e aquilo que lhes chega aos ecrãs, é imensa.

Em tempos, estava em conversa com um voluntário espanhol e um Awajún. Juan tinha terminado o seu projecto e ia regressar a Espanha.

- "Ah vais para Espanha? Diz ao Pedro que estiveste comigo!"
- "Mas eu não o conheço, nem é da minha cidade."
- "Mas és espanhol e ele também, devem conhecer-se, certo?"

A quem viveu toda a sua vida em Santa Maria de Nieva e o mais longe que viajou foi até Jaén, falta noção de mundo. São inundados com imagens e sons mas faltam as bases para os compreender. E isso incomoda-me. Estes jovens adultos serão alvos fáceis de outras pessoas menos bem intencionadas que se aproveitem da sua ingenuidade.

 

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