Paternalismo

Sobre paternalismo ou inculturação

Publicado Quinta, 25 de Maio de 2017


Durante a formação com os Leigos para o Desenvolvimento, várias vezes fomos alertados para erros que se cometem quando estamos em missão de voluntariado. Um deles é tentar mudar muita coisa em pouco tempo.

Não nos podemos esquecer que este é o seu mundo, no qual vivem há centenas ou milhares de anos. Um mundo baseado em conhecimentos empíricos passados entre gerações de forma verbal.

Porque se faz assim? Faz-se assim, porque sempre se fez assim.

Aos poucos, com formação, com o passar do tempo... acima de tudo com paciência e amor tentamos que a mensagem passe. E sempre resistindo à tentação de "corrigir" e "fazer" da forma correcta com as nossas mãos. Se queremos resultados que perdurem no tempo, mesmo após a nossa partida, essa mudança tem de partir deles: de quem é orginário e vive na comunidade. Por isso, devemos pedir a colaboração dos líderes locais, muito respeitados por todos e facilitadores nas interacções.

- Marcamos uma reunião para as 15h e esquecem-se ou aparecem às 17h.
- Usam a sanita e não puxam a água.
- A mulher tem um papel secundário e subserviente na vida da comunidade.
- É comum um homem de 25 anos casar com uma menina de 14.
- Os casamentos são geralmente combinados entre famílias, e o homem deve pagar um dote à família da noiva.
- O valor da justiça e da vingança são indissociáveis.
- etc, etc...

Aceitamos como diferença cultural?
E se estiver contra valores para nós essenciais?
Quais são os valores essenciais... onde se traça a linha?

É um jogo constante, discernir se devemos permitir esse comportamento ou dizer não.

A ténue linha entre o bem e o mal

Quando cheguei à Amazónia conheci o trabalho das Missioneiras do Sagrado Coração de Jesus. Mulheres de coragem extrema, que chegaram à selva na década de 50. Nesse tempo as condições eram muto difíceis. Os povos nativos viviam em isolamento completo. Uma das primeiras religiosas vinda de Espanha, a Irmã Montserrat, chegou a Nieva de hidroavião. Saiu da selva pela primeira vez, passados 5 anos.

Está cá há mais de 60 anos.

Uma das responsabilidades das Missioneiras era a educação de jovens mulheres. Naqueles tempos era difícil cativar a população local para que frequentassem a escola. Por vezes, as raparigas eram forçadas a sair das suas comunidades e ir à escola, vivendo em regime de internato. Há relatos desse tempo no livro "A Casa Verde", de Mario Vargas Llosa.

Foi correcto forçar as meninas a frequentar a escola?
Se não as forçassem há 50 anos, hoje não teríamos professores de ensino primário que falam Castelhano e Awajún. Essas meninas hoje são professoras primárias reformadas e permitiram a implementação de um sistema de ensino na região Amazonas.

Existe algum momento em que devemos impor a nossa vontade? Afinal de contas, nós somos os desenvolvidos... nós sabemos o que é melhor para os outros.

Sobre paternalismo

Parte da minha missão por cá é a coordenação do internato masculino no Instituto. Tenho 25 jovens a viver comigo. São eles que cozinham, limpam, alimentam os animais, tratam dos espaços verdes... tudo o que seja necessário fazer no Instituto.
Para tal, faço uma planificação mensal em que todos sabem o que têm de fazer, em que dia e a que hora. Eles não estão habituados a isto, a esta planificação e preparação das tarefas.

Quando algum dos jovens fica no centro da vila a aproveitar umas cervejas e se esquece das suas tarefas, chamo-o à atenção e explico que viver na residência implica algumas obrigações e não apenas regalias. Geralmente vem acompanhado com uma penalização: cozinhar nos próximos 2 dias, limpar os sanitários, etc...
Por estranho que pareça... eles gostam! Estão contentes, porque existe ordem. Todos sabem quem tem de fazer "o quê" e sabem-no para todo o mês. E quais as penalizações se não cumprirem.

Este nível de exigência é novo por cá. Muitas vezes escuto que não deveria ser tão rigoroso com eles: "Não estão habituados.", "Na sua cultura é diferente.", "Coitados, não se sabem comportar. Temos de os compreender."

Quando cheguei não havia um duche operacional e perguntei: "Onde se banham os jovens?". Escutei várias vezes que eles não gostavam do duche, e preferiam banhar-se debaixo das calhas de recolha água dos edifícios.

Insisti para que reparassem o duche, e comecei eu a utilizá-lo enquanto eles se banhavam com baldes. Passado pouco tempo, todos estávamos a utilizar esse duche e não penso que queiram voltar ao método antigo.

 

 

Nenhuma transformação ocorre sem choque e conflito e não devemos evitá-los se for para um bem maior. O que pretendo evitar é a saída paternalista de assumir que os "coitados não sabem mais" ou "não podem mais".
Se não for assim, estarei cá a fazer alguma coisa?

Queres ajudar-me a permanecer no Perú? Porque preciso de ajuda.

Quero doar

 

 

Partilha a tua opinião, dúvidas ou perguntas sobre este texto ou sobre o meu voluntariado.