Há muitas formas de ser e fazer voluntariado:
- na nossa própria cidade, poderemos colaborar com uma Associação num bairro pobre e dar explicações;
- deslocar-nos para uma zona de conflito e ajudar num campo de refugiados;
- poderemos ir 3 meses para um país Africano e ajudar a construir uma escola;
- ...
O tipo de Voluntariado que desde muito jovem pretendia fazer, é um pouco diferente. Queria sair da minha zona de conforto e fazer algo que permanecesse no tempo, mais duradouro. Mais permanente nesta comunidade e em mim. Sei que posso mudar alguma coisa por cá, mas a principal alteração, no final deste ano, será no meu interior.
Estar na selva Peruana significa estar noutro mundo. A influência ocidental é muito recente e não teve tempo de amadurecer. A estrada chegou há menos de 10 anos, a rede pública de electricidade pouco antes disso. Todas as comunidades à nossa volta não têm conexão às redes públicas de energia ou água. A maioria dos nativos adultos fala pouco castelhano e menos ainda o sabem escrever.
Ao contrário da zona de costa e serra que têm séculos de evangelização católica, aqui a presença dos Jesuítas iniciou-se na década de 60. Nem os Incas se conseguiram instalar e foram facilmente rechassados pelos nativos da selva... Entre os nativos cristãos a maioria são evangélicos, nazarenos, batistas do 1º ou do 99º dia... ou qualquer outra organização que lhes ofereça algo ou transmita um filme na igreja.
Quando uma pessoa adoece, é porque alguém fez uma bruxaria para que isso acontecesse e não porque foi mordido por um dos milhares de animais venenosos que por cá vivem, ou simplesmente apanhou uma constipação.
Ser voluntário numa zona remota, pouco tocada pelo mundo ocidental, significa abrir-se à inculturação. Estar aberto a outras formas de pensar e agir e não sentir choque com as coisas mais estranhas. Há umas semanas, um rapaz envenenou uma rapariga por ciúmes envolvendo outro rapaz. Soube-se quem era e foram à sua comunidade captura-lo. Até há poucos anos, seria normal que a família da vítima matasse um membro da família do assassino em retaliação: este é seu o conceito de justiça. Isto iniciaria um ciclo contínuo de mortes e demoraria anos a terminar. Era normal e aceitável.
Mas agora é ainda pior... Após reunião entre as famílias ficou decidido que se ele pagasse um valor de 15.000 S/. (5.000€) a família da rapariga não buscaria vingança e o assunto terminaria ali. O rapaz que envenenou a miúda ficará em liberdade.... O capitalismo chegou à selva.
A inculturação passa por falar o idioma, comer as suas comidas típicas, beber o masato mas também aprender a respeitar os seus costumes locais.
Tenho feito um pouco de tudo: dou aulas, ajudo na organização logística do Instituto, condução da furgoneta, limpar mato e os tanques de água... e acima de tudo dou-me a mim em cada interacção com os jovens.
Mas um pensamento está sempre presente nas minhas acções: e quando eu me for? Não é garantido que venha alguém no próximo ano... é bem provável que não aconteça. Eu sou o primeiro a viver em permanência com os jovens no Instituto. Se pretendo que as minhas acções surtam algum efeito, essa mudança tem de continuar mesmo sem a minha presença.
Ser voluntário numa Organização Não Governamental para o Desenvolvimento significa ajudar outros crescer e não apenas planificar e executar a acção em concreto. Esta frase tem-me acompanhado bastante: ajudar outros crescer. E várias vezes me apercebo que estou a fazer algo que dentro de meses não fará sentido, mas no momento é necessário para o crescimento e aprendizagem de alguém que me acompanha. O meu foco não está apenas no objectivo final, mas também no processo de aprendizagem.
Claro que a minha competência específica também é útil e estamos a concluir o site para o Instituto, algo que ficará por muitos anos :)

Durantes estes meses que já vivi em Condorcanqui, tenho sentido momentos de verdadeira frustração. É difícil motivar e trabalhar com os alunos do Instituto, uma vez que não existe um trabalho de base durante o seu crescimento.
A qualidade do ensino primário e secundário é muito baixa e os professores pouco preparados em termos técnicos e pedagógicos. Os jovens vão crescendo sem hábitos de leitura, sem espírito crítico, sem noção do planeta em que vivem. Muitas vezes penso no apoio familiar que deveria ser a base de toda a formação, mas aqui não existe. Os pais destes jovens nasceram e cresceram noutro século, mas não foi no século XX. A geração anterior nasceu e viveu do mesmo modo como se vivia há centenas de anos.
Quando cheguei contaram-me sobre os projectos que as Nações Unidas tentaram implementar no terreno e como todos falharam. A UNICEF tentou durante décadas mas acabou por sair sem conseguir atingir os objectivos. Por vezes, chegam professores Peruanos da costa ou da serra, à procura de oportunidades nesta zona do país. Mas passado pouco tempo, também eles partem desiludidos com o que encontram. Estamos a meio do ano lectivo e já 3 professores informaram a Direcção do Instituto que não continuarão no próximo semestre.
Para se viver e ser Voluntário, é necessário compromisso e espírito de missão.
Queres ajudar-me a permanecer no Perú? Porque preciso de ajuda.
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