Em Portugal, tirando moscas e formigas, eu não matava nenhum insecto ou aracnídeo. Pensava que faziam parte da cadeia natural e tinham direito à vida. Aqui, já tirei a vida a insectos que caminham, saltam ou voam que nem conhecia, morcegos, cobras, aranhas... estou feito um assassino.
Para nós europeus, uma borboleta é símbolo de beleza e vemo-la como um animal positivo. Para os Awajún, a borboleta tem uma conotação negativa e está associada à destruição de colheitas. Em alguns contos na sua mitologia, a borboleta provem de um homem mau que destruia o trabalho alheio.
É comum ver cobras pelos caminhos, afastando-se à nossa passagem e movimentando as ervas. Já me aconteceu ir num moto-táxi e o motorista levantar as pernas porque viu uma cobra na estrada e evitou ser mordido. Algumas cobras são venenosas, alguns insectos ao picarem provocam dor intensa e podem forçar a hospitalização.
Viver rodeado de perigo
Aqui, o ritmo de vida é lento... mas quando senti uma aranha do tamanho da palma da mão, caminhando pela minha cama enquanto estava deitado, garanto que me levantei tão rápido que a devo ter atordoado de susto. A vassoura foi um grande aliado.
Há umas semanas atrás, estava no duche (um cubículo exterior) e uma rã entrou para me fazer companhia. Enquanto tentava com o chinelo afastá-la, os meus alunos repararam e avisaram-me que era venenosa. Se me tocasse nas pernas provocaria uma alergia forte. Felizmente não gostou da minha água com sabão e procurou uma água mais limpa.
E eu estou na zona mais urbanizada da região Amazonas!
Imagino como seja viver nas comunidades isoladas pela floresta.
Alguns de vós ao lerem estas palavras devem pensar "eu não poderia viver aí", "que perigo". Mas acreditem que depois de uns dias, tudo se torna um hábito e não pensamos muito nisso.
Se analisarem as estatísticas de atropelamentos em Lisboa também não sairiam à rua.
PORDATA: em 2015, na Área Metropolitana de Lisboa foram atropeladas 324 pessoas.
É fechar os olhos... e aproveitar a viagem.
Um corpo único
Quando chove, não tenho a imagem romântica da água a bater nas janelas de vidro enquanto seguro uma chávena quente de café. Em primeiro lugar porque nenhuma janela tem vidro... apenas uma rede mosquiteira.
Significa que vamos encher os tanques e teremos água para nos banharmos, cozinhar e lavar a roupa. Basta três dias sem chover para esvaziarmos os tanques e teremos de caminhar até um riacho para buscar água em baldes. A chuva significa que para ir ao centro da vila, teremos de ir caminhando pela estrada porque o caminho mais curto de terra está lamacento e torna-se perigoso. Significa também que, muito provavelmente, a electricidade vai falhar durante umas horas e convem estar preparado.
Mesmo com tudo isto, quando chove... sinto alívio.
As alterações climáticas são reais e os nativos dizem-me que está a chover muito menos do que antes e os meses de chuva também estão a mudar.
Entendo a ligação dos Awajún à sua floresta, são uma e só uma entidade. Mesmo vivendo cá há pouco tempo, também eu consigo dizer que vai chover pelo simples abanar das árvores. O ar cheira diferente. Basta estar atento e aproveitar a brisa fresca.
O calor do meio-dia é tão intenso que não se pode trabalhar, apenas procurar uma sombra e descansar... às 18h quando o sol baixa e bate nas árvores temos de nos sentar e vê-lo a desaparecer.
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